Domingo, Outubro 09, 2005

 

É sempre a mesma merda, Zé!

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Depois de ter ido serenamente até à minha secção de voto exercer o meu direito (em Almada, que, para quem não sabe, é um município liderado há mais de vinte anos pela mesma pessoa, do PCP, e pela sua troupe de caciques locais), passei a tarde no Campo Grande, no belo Museu Rafael Bordallo Pinheiro, que recentemente reabriu as suas portas e durante os próximos tempos não cobrará nada aos visitantes.

Rafael Bordallo Pinheiro foi um célebre caricaturista português do século XIX, criador da figura do Zé Povinho, desse Zé conformado, treinador de bancada, que vive queixando-se mas raramente arregaça as mangas para mudar seja o que for. Dizia Bordallo Pinheiro que “Talvez um dia este Zé Povinho mude de vida, e então sim, mudará de nome, passando a chamar-se apenas Povo”. Mal ele sabia que, passado mais de um século, o Zé continuaria igual a si mesmo: bronco, ignorante e bisonho.

Um povo estupidamente adormecido na sua própria indiferença. De vez em quando lá acorda por uns minutos: para fazer o 5 de Outubro, o 25 de Abril, gritar por Timor Leste, para depois voltar novamente para a cama e roncar por mais umas décadas.

E depois a culpa é sempre “deles”. Por “eles” entenda-se os políticos/o sistema/ o capital estrangeiro/ os espanhóis/ os chineses/ os funcionários públicos/ os interesses instalados (escolher a que melhor se aplique às circunstâncias). Pois desiludam-se: a culpa não é “deles”, é nossa. De todos. Cada povo tem os políticos que merece. Cada porco chafurda no seu próprio esterco. Porque os políticos não são diferentes de nós, eles espelham os nossos valores, a nossa cultura, a nossa mentalidadezinha, com a particularidade de terem o poder necessário para darem largas a tudo isso até às últimas consequências. Só um povo de ladrões (ou de gente que compactua com a ladroagem) elege um presidente de câmara ladrão. Só um povo de corruptos (ou de gente que tolera a corrupção) gera um líder corrupto.

O problema dos portugueses é que, em tese geral, têm todos um sentido ético imaculado. Por exemplo, todos são contra as cunhas, compadrios e corrupção em abstracto. Mas quando se trata de pedirem uma cunha para si ou para um familiar, encontram logo mil e uma razões justificativas para a sua própria incoerência moral. Dirão “bom, toda a regra tem a sua excepção e o meu caso é totalmente diferente” ou “no fundo, até é por uma boa causa”. Todos acham que se deve cortar nas despesas em tempo de vacas magras, desde que o corte não passe pelo seu próprio bolso, porque aí já passa a ser uma tremenda injustiça. Pimenta no cú dos outros é refresco. O problema é que as excepções são tantas, e é tanta gente a justificar excepções, que a regra passa a ser letra morta.

Neste momento, é quase certo que Isaltino Morais, Ferreira Torres, Fátima Felgueiras e Valentim Loureiro serão os grandes vencedores. A razão? Sempre o conformismo e a baixa bitola do Zé Povinho: “Roubar, todos roubam. Ao menos elege-se alguém que roube, mas também vá fazendo alguma coisa”. Quando isto é o melhor que se pode dizer de um político, algo vai muito mal com a democracia portuguesa.

Em breve, o mesmo Zé Povinho prepara-se para optar entre duas figuras do passado para conduzir o futuro do País na mais alta magistratura nacional (uma delas, aliás, disse expressamente que estava reformado e jamais se candidataria de novo a um cargo político). Em dez anos, este povinho foi incapaz de gerar caras novas, gente de mérito disposta a prestar um serviço à Nação. A culpa não é deles. É da debochada Pátria que os pariu a todos. É de todos nós enquanto Povo, e de todos nós enquanto indivíduos, porque não temos feito o suficiente, com a nossa conduta pessoal, para sermos factores de mudança para a mentalidade colectiva.

No meio de tudo isto, safa-se o Rafael Bordallo Pinheiro. Visitem o museu, é à borla e fica no Campo Grande, n.º 382. Vale a pena, quanto mais não seja, para rir dos vícios de ontem e de hoje deste nosso Zé Povinho.




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