Domingo, Outubro 16, 2005

 

Os cromos do Bairro

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Cada vez mais me convenço de que Lisboa é uma cidade de gente com sérias perturbações mentais.
Já me aconteceu de tudo, desde:
- Sentar-me ao lado de uma velha no autocarro com o cabelo tão oleoso que aquilo espremido daria para fritar batatas e ela, de um momento para o outro, começar a escarrar para o chão (e eu a encolher as pernas para não ser atingido, até porque estava sentado do lado da parede e não havia escapatória possível) e, de repente, virar-se para mim com ar lunático, e falar-me em voz alta, apontando para uma mulher à nossa frente “Está a ver aquela puta?? Está a ver bem? O que ela quer sei eu!!”
- Ser insultado em plena rua, juntamente com colegas do escritório, à hora do almoço, por um homem que de repente parou e resolveu que éramos nós os culpados de todo o mal do mundo.
- Ter um tipo magricelas e com óculos convencido que conseguia assaltar-me a mim e a amigos meus, estado em inferioridade numérica e a cena ser interrompida por um hippy alucinado, que não parava de lhe perguntar se ele achava que Jesus aprovava o que ele estava a fazer.

Mas o cromo deste fim de semana bateu tudo.
Ia com amigos a caminhar, à noite, pelo Bairro Alto (o Bairro Alto é o local da capital com maior concentração de cromos estranhos por metro quadrado, com uma agravante: as suas "vítimas" estão normalmente demasiado bêbedas/demasiado ganzadas para conseguirem reagir com inteligência à situação... Aliás, em raras e geniais ocasiões sucede a vítima transformar-se em cromo, e o cromo afastar-se respeitosamente, por encontrar alguém mais louco que ele), quando uma amiga minha começou a contar a história de um “filme” que tivera naquele exacto local há tempos:
“Veio um agarrado pedir-nos esmola, e às tantas quando vê que nós lhe estávamos a dar para trás, ele diz-nos que passa recibo, e mostra-nos o livro de recibos!”. Entretanto, um tipo negro com um ar alucinado separou-se do seu grupo de amigos e reparámos que caminhava ao nosso lado, ouvindo a conversa.
Quando ela termina a história, ele vira-se para ela e diz: “Sim, mas são todos humanos?”
“O quê??”
“Somos todos humanos, pá, os agarrados também são humanos, merecem o nosso respeito”
“Tu não estás a perceber. Nós não estamos a gozar com o agarrado, a piada da história é ele passar recibo pela esmola, não é por ser um agarrado”
“Está bem, passa recibo, mas isso é o comportamento dele, e deve ser respeitado como humano que é”
Entretanto, toda a gente se juntou ao debate, não só para convencer o homem de que os direitos humanos do agarrado não haviam sido violados, como para prevenir que ele se passasse da cabeça e começasse a aviar tabefes na minha amiga. Passámos vários minutos nesta conversa de loucos, até que o nosso paladino dos agarrados resolveu dar uma corrida para se juntar ao seu grupo de amigos e dexou-nos, por fim, sozinhos, com a sensação de termos entrado por instantes na twilight zone e não nos termos apercebido.

E vocês, têm histórias de cromos de Lisboa (e não só)?



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