Domingo, Setembro 25, 2005
As Equipas de Nossa Senhora IV
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Se bem se lembram, no último episódio das Equipas de Nossa Senhora, o nosso braço armado da igreja católica preferido viu-se frente a frente com as suas arqui-rivais Brigadas da Virgem Maria. Era preciso um milagre para os dois grupos não se envolverem numa batalha fratricida.
Mas haverá melhor ocasião para um milagre do que numa saga chamada “As Equipas de Nossa Senhora”?
De súbito, um clarão envolveu a noite lisboeta. Algo muito brilhante poisou sobre uma oliveira (não me perguntem como apareceu uma oliveira no centro de Lisboa, os desígnios de Deus e as alucinações do Pombo são inacessíveis às mentes dos homens). Algo semelhante a um saxo cup kitado para poder voar, com um intenso néon azul-celeste debaixo da carroçaria. A porta abriu-se e dela saiu uma personagem feminina cintilante. Soou uma voz:
NOSSA SENHORA: Olhem lá, vocês tencionam ficar nisso a noite toda?
A multidão olhou estupefacta para aquela aparição. Entre as Equipas de Nossa Senhora e Brigadas da Virgem Maria ouviam-se vozes perguntando “Mas, quem é?” e “A cara dela não me é estranha. É suposto a gente conhecê-la?”. Até que finalmente…
TODA A GENTE: Madonna! Madonna! É a Madonna com um visual novo!
NOSSA SENHORA: Eu sinceramente por vezes pergunto-me porque é que ainda me dou ao trabalho de aparecer a esta gente…
FUNCIONÁRIO DA EMEL (que surgiu de repente): Posso ver o seu título válido de estacionamento?
NOSSA SENHORA: Desculpe??
FUNCIONÁRIO DA EMEL: Toda esta rua é de estacionamento pago. Não viu ali o sinal e o parquímetro? Onde está o seu tiquê?
NOSSA SENHORA: Mas eu sou a Nossa Senhora e estou a meio dum milagre. Importa-se??
FUNCIONÁRIO DA EMEL: Você até podia ser a Shakira, que pagava parque na mesma. Bom, se fosse a Shakira, provavelmente precisaria de tirar dois tiquês, porque aquele rabo ocupa dois lugares, eheh! Vou ter que lhe bloquear a auréola.
[a NOSSA SENHORA fulminou então o FUNCIONÁRIO DA EMEL com um raio, transformando-o num sapo e amaldiçoou para todo o sempre os funcionários da dita empresa municipal, condenando-os a usar até à eternidade uma farda verde-sapo, a nunca na vida conseguirem ter sexo sem terem que pagar por ele e a jamais conseguirem fazer amigos, excepto com outros funcionários da EMEL.]
TODA A GENTE: Madonna, Madonna, canta o “Like a virgin”!! Vá lá!
NOSSA SENHORA: Já ouvi falar em evangelização pela música, mas isto é ridículo...
[virou-se então para o alto, onde Pai, Filho e Espírito Santo observavam a cena, rindo à gargalhada e dizendo “Vá lá, Maria, estamos à espera! Canta!”, e fez um esgar reprovador]
NOSSA SENHORA: Nem uma palavra sobre este episódio na próxima reunião geral de santos!!
[Nossa Senhora, do alto da sua infinita benevolência, fez então aparecer um enorme palco, com efeitos de luzes e espectáculos de fogo, uma troupe de dançarinos porto-riquenhos, e começou a sua brilhante actuação. Entretanto, outros se lhe juntaram. Santo António, no palco roots & spirits, cantava reggae, um grupo de anjinhos alucinados montaram uma enorme tenda onde puseram música transe, Judas vigarizava o pessoal vendendo caldos knorr como sendo haxixe]

NOSSA SENHORA (começando a gostar da renovada atenção de que era alvo): Boa noite, Lisboaaaa!!
TODA A GENTE: EEEEEEEEEEEEEEHHHHHHHH!!!!!
NOSSA SENHORA: Adoro-vos! Vocês são o melhor público do mundo! Bem melhores que aqueles caretas de Fátima!!
TODA A GENTE: BUUUUUUUUUUUHHHH!
NOSSA SENHORA: Vamos cantar uma canção que eu adoro… Mas primeiro, quero ver esses isqueiros no ar!! É mesmo isso, minha gente!! A Nossa Senhora ama-vos!!
TODA A GENTE: A nossa quem? Quer dizer que não é a Madonna e estivemos todos para aqui a ouvir uma fraude??
As Equipas de Nossa Senhora e as Brigadas da Virgem Maria debandaram em conjunto. A mão de Deus havia trazido um sopro de vida e fraternidade (como é que a mão trouxe um sopro, não sei—é o mal das metáforas, uma pessoa deixa-se levar por elas e dá em tiradas deste género) às relações entre as antigas rivais, até porque tinham que reunir-se para organizar o festival do próximo ano. Como os santos cobravam um cachet muito alto, decidiram contratar artistas a sério. Apenas o casal de swingers se apercebeu de que haviam presenciado um milagre, e renunciaram à sua vida pecaminosa para fundarem um mosteiro. Bom, foi mais propriamente um prostíbulo de luxo na red light district de Amesterdão, chamado “O Mosteiro”, com meninas vestidas de freira para clientes com esse fetiche. Mas isso já é outra história nova…
FIM