quinta-feira, abril 28, 2005

 

Dúvida existencial fora de época

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Alguma vez pensaram porque é que as pessoas, no dia 31 de Dezembro, mesmo que de acordo com o seu relógio já passe da meia noite, só festejam o novo ano no exacto momento em que "os senhores da televisão" o fazem?

Será que o relógio dum trintão da régie coberto por uma perpétua camada de acne desde os 13 anos tem força de lei? Será que na televisão têm uma equipa de matemáticos, físicos e astrónomos ocupados com cálculos complexos para determinar o exacto segundo em que o planeta Terra descreve uma rotação completa? Será que o Herman José, a Júlia Pinheiro ou a Teresa Guilherme se encontram incumbidos por direito divino de fazer a interpretação autêntica do calendário?

Quando passam o fim de ano em local ermo onde não existe televisão (na praia, numa aldeia no meio do nada, ou entre as coxas anafadas duma rameira citadina num quarto da pensão A Estrela de Arroios) ou quando se encontram demasiado bêbedas ou drogadas para repararem nela, as pessoas ficam desorientadas, como que órfãs, e a coisa passa-se assim:

"Eh pessoal, já é ano novo!!!!"

"EEEHHHHHH!!!! FELIZ 2005!!!!"

"Calma lá, ainda não é, pelo meu relógio faltam 2 minutos!!"

"Ah, pronto..." (os convivas apressam-se a regorgitar as doze passas para a palma da mão sob a forma de uma pasta semi-mastigada e disforme)

"FELIZ 2005!!!!!!", grita alguém ao longe.

"EHHHHHHHH!!!! BOM ANO!!!!", gritam todos em coro.

"Ainda não é, pá!! falta meio minuto!!"

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terça-feira, abril 26, 2005

 

E o grande prémio "`DA-SE!!" vai para...

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O leitor que acedeu recentemente ao nosso blogue vindo do google brasileiro usando a expresão de pesquisa "crianças amarradas" .

"Referring URL: http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&q=crianças%20amarradas&meta=lr=lang_enlang_pt

Apr 25, 2005 08:55:52 PM

IP: 201.0.***.** "

O mais fantástico é que, sim, é possível vir-se ter ao Pombo Incontinente escrevendo "crianças amarradas" no google! Até eu fiquei admirado! Tudo graças a um post que colocámos por altura do Natal, em que sugeríamos maneiras de manter as crianças quietinhas e aconchegadas durante a quadra...

Mas algo me diz que o leitor em questão terá ficado um pouco desapontado com o que encontrou(por não estarmos já no Natal).

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segunda-feira, abril 25, 2005

 

Como seria o Pombo Incontinente se não tivesse havido o 25 de Abril

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(para ler com voz fanhosa de locutor do radio club, dos anos 50)

Pois cá estamos, meus queridos amigos e amigas, sem esquecer os nossos estimados leitores das províncias ultramarinas (ai Lourenço Marques, Lourenço Marques, que saudades das minhas férias africanas no paquete Veracruz com a minha Lenita!)!

Está sem dúvida um bonito dia neste 25 de Abril, Dia da Nação Portuguesa, porque há exactamente 31 anos atrás as nossas heróicas forças da lei e da ordem reprimiram uma tentativa de golpe de estado por meia dúzia de comunistazecos estrangeirados! E foi numa manhã primaveril como esta! Se não fosse o 25 de Abril, os malditos comunistas, inimigos de Deus, da Pátria e da Família teriam tomado conta da nossa pobre nação e não gozaríamos da iluminada liderança do nosso bem amado Doutor Paulo Portas, que ascendeu a Presidente do Conselho após o falecimento do Professor Marcello (o Caetano, não o seu afilhado tresmalhado e esquerdoso, obviamente, que se encontra exilado... e bem, que é para aprender a não usar os seus comentários semanais para difundir ideias subversivas!).

Ora e o assunto que queria hoje tratar é de grande importância para o nosso querido Portugal, sobretudo para os nossos alegres camponeses que malham dia após dia na sua humilde mas nobre labuta rural, contribuindo para a grandeza desta nossa nação de lavradores: a seca que nos tem afectado ao longo destes meses. Ora, parece que ela vem sendo muito dura nessa formosa- das mais belas deste nosso Portugal - província que é o Alentejo, o celeiro da Nação. Com as dificuldades que se prevêem para a campanha do trigo, será de prever um aumento de 20 tostões no preço da carcaça. É caso para dizer: com a seca, não há papo seco para ninguém eh eh eh! Não perceberam? Era uma piada... "Seca", "papo seco"!! Ai, que grande folguedo, louvado seja Deus!

Ah e parabéns à Menina Isabelinha Carapau, que conseguiu o notável feito de vencer o festival da canção para filhos dos associados do grémio nacional dos bacalhoeiros, na sua edição de 2005! Neste momento estará a gozar o merecido prémio de um fim de semana para duas pessoas na praia da Cruz Quebrada, esse nosso bonito paraíso tropical! Felicidades para a tenra cantadeira ribatejana, já conhecida pelo povo como o rouxinol escalabitano!

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sexta-feira, abril 22, 2005

 

Os testes psicóticos

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Existe uma altura na vida de uma pessoa em que, mais tarde ou mais cedo, se submete aos testes de um(a) psicólogo(a) porreiraço(a) que se propõe a desmontar a sua intrincada psique criminosa, parcialmente fragmentada, com períodos de amnésia alcoólica e flashbacks de cenas da "Música no Coração".

Entre os TESTES PSICOT(écn)ICOS, sobressai um grande clássico e um favorito pessoal aqui por estas bandas: o teste do borrão!

PSICÓLOGO: Ora diga-me, o que vê nesta imagem?


EU: Vejo duas crianças a correr por um prado de mãos dadas, com um ovelhinha a pastar, um anjinho brincalhão a esvoaçar e uma casinha de onde sai uma senhora com uma travessa de biscoitos para a criança e o anjinho.

PSICÓLOGO: Bom, passemos à imagem seguinte... O que vê aqui?



EU: Vejo dois gatinhos a brincar com um novelo de lã, e uma velhinha simpática a tricotar sozinha em sua cadeira de baloiço, enquanto espera pelo regresso dos netinhos e dos filhos que foram ao bosque colher avelãs para o lanche.

PSICÓLOGO: Hmm e quanto tempo demorarão eles a regressar?

EU: Vinte cinco minutos e trinta e dois segundos, já tenho tudo cronometrado, ando a observá-los há meses. Dá tempo que sobra para me livrar da velha e fugir com o dinheiro!
[psicólogo engasga-se]

EU: Bolas! Outra vez não! A coisa estava a correr tão bem! Podemos começar de novo?

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quinta-feira, abril 21, 2005

 

Goodbye Lenin (and thanks for all the fun)

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Tenho uma fraqueza a confessar-vos... Quando postei um excerto do livro de bolso "A mulher albanesa emancipada", certamente desconfiaram, mas nada disseram. Agora eu confirmo: sim, tenho um verdadeiro fétiche por memorabilia marxista-leninista pré-perestroika.

Noites e noites de ternurentos suspiros e de prazer intelectual e - digamo-lo com frontalidade, erótico! - a ler pequenas edições panfletárias de bolso dos cadernos Seara Nova do tempo em que o Che Guevara significava um pouco mais do que um logotipo apelativo para estampar em t shirts e canecas, com títulos tão sugestivos como "O Proletariado e o Movimento Sindical no Bangladesh Moderno" ou "A América Latina e o imperialismo ianque: um continente em marcha pela emancipação".

Sei que o comunismo está fora de moda. Eu próprio, apesar da fama de esquerdista, sou-o moderadamente. Mas há algo de trágico (e, como tudo o que é trágico, altivo) na defesa de um ideário de finais do século XIX que todas as vezes que foi implementado deu resultados catastróficos, e ainda assim acreditar que se se tentasse mais uma vez, a coisa daria certo e toda a gente se portaria bem desta vez. É claro que nos anos 70 o pessoal ainda não o sabia, e aí é que está todo o encanto e beleza da coisa!

Além de me furtarem por breves instantes ao meu próprio cinismo e azedume político, nestes livrinhos topam-se por vezes com deliciosas tiradas... Como esta ("Cuba e Argélia: caminhos do terceiro mundo", Lisboa, 1975), vinda de um discurso de Fidel Castro aquando da visita duma delegação argelina a Cuba:



Sim, leram bem, as pessoas gritavam "Fidel, com firmeza; aos ianques, dá-lhes com dureza!" . Infelizmente, não consta do texto se Fidel Castro terá ou não interrompido o discurso para simular com a mão o gesto de dar palmadas nas nádegas de uma parceira imaginária, para gáudio da audiência. É pena...

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terça-feira, abril 19, 2005

 

Hmm malta, e que tal pensarem em discutir a questão da limitação de mandatos também no Vaticano, heim?

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Perante o anúncio da eleição do cardeal Ratzinger como novo Papa, o povo reunido na praça de São Pedro e por todo o mundo saudou o novo herdeiro de São Pedro aparentemente de acordo com um costume antigo, colocando as mãos na cabeça e gritando "Nnnnnnãaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaoooooooooo!!!!".

Entretanto, a eleição pelo Conclave do cardeal Ratzinger fez oficialmente desvanecer-se mais um tabu político no PS: Guterres não ocupará o lugar de Papa. O ex-primeiro ministro, de acordo com informações de colaboradores, aguarda serenamente a abertura de vagas algures para que possa retomar a sua actividade profissional de Potencial Candidato a Candidato a Alguma Coisa.

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segunda-feira, abril 18, 2005

 

Preciso de ti para as Brigadas Pombistas Anti-Karaoke

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Dado o fantástico apoio e solidariedade que o meu post anti-karaoke teve junto do público deste blogue, creio que é tempo de reunir tanta vontade férrea e motivada e avançar com o meu novo projecto: as Brigadas Pombistas Anti-Karaoke (BPAK, gosto da sigla, soa assim a grupo terrorista macedónio, verdadeiramente arrepiante!).




Nomeio Esdruxulando (pela excelente ideia de "pena de morte por fuzilamento com bazucas" para quem cante os "Jardins Proibidos" em karaoke) Director Nacional das Brigadas. Anjo Caído Coordenador da Comissão Nacional de Higiene Mental, Principessa como Presidente do Observatório Pombista para a Implementação da Lei do Bom Gosto Coercivo (em elaboração), Esgroviada como Presidente do Instituto Pombista da Juventude e Prevenção da Karaokedependência, como delegada nacional das Brigadas na Nação Portuense, Papagaio como Director de Recursos Humanos e Recrutamento das Brigadas (tendo como principal função a de viajar como "olheiro" por países como a Coreia do Norte, Iraque e Colômbia em busca dos melhores jovens talentos na arte de amassar costelas para integrarem os nossos efectivos). Quanto aos outros, não desanimem: hei-de pensar em algo (isto de arranjar tachos à pressão não é fácil).

Ora imaginem as notícias de capa:

"BPAK desmantelam mais uma rede ilegal de karaoke

Na madrugada de ontem as Brigadas Pombistas Anti-Karaoke desmantelaram mais uma rede que se dedicava a esta actividade, na linha do Estoril.

Segundo fontes das Brigadas, decorria na cave do restaurante-bar A Pastorinha, junto à praia de Carcavelos, um torneio de karaoke clandestino. As Brigadas, ao fim de uma operação de 2 anos envolvendo agentes infiltrados, penetraram no local dizendo à entrada a senha "Saber amar é saber deixar alguém te amar", obtida através dos serviços secretos. Lá dentro, prenderam os três proprietários do local, o cidadãos que na altura se encontrava a cantar, Nélson Figueira, residente em Matarraque e conhecido como perigoso reincidente, bem como as 134 pessoas que se encontravam a assistir nas instalações. O material apreendido encontra-se à guarda das Brigadas e os 138 envolvidos encontram-se detidos em celas com isolamento sonoro aguardando julgamento. Foram igualmente passadas 120 multas por violação da Lei do Bom Gosto Coercivo, sendo as infracções mais frequentes o uso de penteado à escovinha e camisolas sem mangas.

Segundo Esdruxulando , director nacional das Brigadas, este ano tem sido particularmente positivo em termos de apreensões de material de karaoke e condenações por esta prática ilegal, desde que a lei anti-karaoke entrou em vigor, em 2011, após a subida ao poder do nosso adorado líder e timoneiro da nação lusa Pombo Incontinente.

O nosso bem-amado Comandante-em-Chefe Pombo Incontinente felicitou as Brigadas por mais uma operação bem-sucedida e apelou à vigilância de todo o povo português como dever patriótico, frisando que "é enquanto os fortes dormem que os fracos tomam o poder."

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sexta-feira, abril 15, 2005

 

A seca chegou a Lisboa

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Seca extrema e severa atinge 80 por cento do território português

A seca atinge com especial gravidade um ponto preciso na Alameda da Universidade, Cidade Universitária, 1649-014 Lisboa, em especial (mas não exclusivamente) durante as aulas teóricas de Direito Internacional Privado.

O Instituto de Meteorologia recomenda que se combatam os efeitos da seca jogando ao galo e à batalha naval no caderno.

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quinta-feira, abril 14, 2005

 

A saga dos caracóis espaciais

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Mais de 50 caracóis vão participar numa aventura espacial. Na próxima semana, os pequenos astronautas aterram na Estação Espacial Internacional (ISS) onde vão ser submetidos a experiências biológicas.

O coordenador do projecto, Dr. Edward Fagundes, astronauta luso-descendente, justificou ao Pombo o pedido de requisição de caracóis dirigido à base, bem como de três caixas de mínes da Sagres, com a necessidade imperiosa de estudar o comportamento dos caracóis quando submetidos a cozedura com tempero à base de orégãos e vinho branco, acompanhado pelo álcool resultante da fermentação da cevada em ambiente de gravidade zero.

Além disso, a comida nas estações espaciais é, nas palavras do perito, "uma bela merda, parecida com a comida dos aviões, mas para pior" e "perante a aproximação do final da superliga, torna-se necessário acumular provisões".

Terminou lamentando o facto de um outro seu projecto de investigação espacial envolvendo moelas, tremoços e escort girls brasileiras tenha sido vetado pela Agência Espacial.

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segunda-feira, abril 11, 2005

 

Karaokem-mos!

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Um típico final de jantarada com amigos da faculdade:

POMBO: Bom, pessoal, onde vamos agora?

COLEGA 1: Vamos a um bar muito porreiro, vais gostar...

POMBO: Bom, vocês sabem que eu só faço uma exigência… Mas digam lá, onde fica?

COLEGA 2: Fica ali para Carcavelos. É muito acolhedor, vais adorar aquilo!

POMBO: Vocês não me estão a esconder nada, pois não?? Olhem que eu chateio-me!

COLEGAS (em coro): Não, não, nunca!! Achas que te íamos enganar?

POMBO: Filhos da mãe, eu conheço-vos! Deixem-me em casa!!

COLEGA 1: Prendam-lhe os braços e as pernas e metam-no no carro, rápido!!!

COLEGA 2: O sacana mordeu-me, metam-lhe um trapo na boca!!

A última vez em que conseguiram fazer-me entrar num local com karaoke, a coisa passou-se assim.

Tenho a confessar esse meu handicap social: ODEIO KARAOKE! É para mim uma tortura insuportável manter-me mais de 5 minutos na mesma sala com tipos suburbanos de camisetas sem mangas e cabelo espetado com gel a gorgolejar Paulo Gonzo, ou Cátias Vanessas loiras com as raízes do cabelo pretas, soutiens com alças de silicone e calcinhas da apanha da amêijoa a guinchar verborreias mentais R&B, enquanto imitam com o corpo o ritual de acasalamento do orangotango vermelho do Bornéu.

Nesse estranha sociedade altamente estratificada, pontificam os karaoke pros, uma espécie de casta de iluminados brahamanes cujo trunfo para conseguir convencer as Cátias Vanessas de Massamá a embarcar no seu saxo cup num passeio nocturno pela mata do Estádio Nacional é fazer boquinhas enquanto cantam Robbie Williams. Sim, é verdade, pessoal, até eu fiquei admirado: existe gente que se dedica a andar de terra em terra em campeonatos de karaoke!

Ora, se algum deles me lê, aprendam, que eu não duro sempre! Das duas uma:

Ou tens uma daquelas vozes que cada vez que se ouvem fazem com que os vizinhos num raio de 200 metros procurem nas páginas amarelas um tipo que lhes conserte a máquina de lavar roupa devido aos ruídos estranhos – e aí "Não se fazem milagres, meu anjo", a opção correcta é desistires de toda a qualquer pretensão musical.
Ou então cantas bem (e não, não és tu nem os teus amigos ou o gajo que te quer saltar para a espinha que será capaz de o avaliar—existe uma regra relativamente segura segundo a qual a qualidade da tua voz é directamente proporcional à quantidade de pessoas VOLUNTARIAMENTE dispostas a ouvir-te. Não te desvies dela! Nunca. Digam o que disserem.), e então será de considerar seguires uma carreira musical TUA, com canções tuas, e não dares largas aos dotes em lugarejos deprimentes a abarrotar de gente bêbeda e feia.

Lamento a incontinência. Ao contrário do que se pensa, o Pombo tem coração. Mas também tem ouvidos...


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sábado, abril 09, 2005

 

É oficial

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O politicamente correcto chegou à indústria farmacêutica...


(foto clandestinamente tirada numa farmácia perto de si)

Alguém me explica em que consiste o conforto intestinal?

Será que a partir de agora veremos anúncios ao melhor estilo do marketing a pensos higiénicos, com actrizes de ar resplandecente afirmando que "com Transit a minha vida mudou. Os meus intestinos sentem-se confortáveis!" ou "Como desportista, o conforto intestinal é muito importante para mim. Por isso, sei que fiz a escolha certa: Transit acompanha-me em todos os jogos, como na vida!"

E que génio de marketing terá tido a ideia de chamar Transit a um remédio para intestinos??

Mas querem ver algo verdadeiramente perturbador? Comparem os logotipos...


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quinta-feira, abril 07, 2005

 

O Cú-tovelo

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Como os nossos seguidores mais atentos sabem, neste blogue nem tudo o que parece é, e por vezes aquilo que é não parece.

Nem tudo o que luz é ouro e nem tudo aquilo que apresenta um rego cheira mal - poderá tratar-se apenas de um simples cotovelo dobrado fotografado com zoom...


(Copyright Pombo Incontinente (C) Título: O Cotovelo da Lenita, 2005)

Estava a pensar retirar desta máxima algumas ilacções e piadas espirituosas de cariz político, de forma a permitir aos meus leitores postar comentários como "ora tal afigura-se-nos como uma perspectiva assaz pertinente e incisiva. Reflitamos conjuntamente sobre tal problemática", mas hoje não me apetece.

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terça-feira, abril 05, 2005

 

As aventuras do Pombo Incontinente em Cuba

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Por esta altura já saberão das aventuras e desventuras do Pombo Incontinente através das notícias dos jornais (se não sabem, em que mundo têm andado vocês??), mas ainda assim conto-vos como tudo se passou.



Após uns dias em Havana, com o quotidiano habitual de charutos, daiquiris e o constante fumaça dos tubos de escape de banheiras dos anos 50, dirigimo-nos para Varadero. O nosso transporte, pelo caminho, parou para uma mija em Guantanamo Bay (é claro que os leitores mais atentos saberão que Guantamo fica no extremo oposto da ilha, e nada em caminho para quem vá de Havana para Varadero, mas é muito fácil uma pessoa perder-se por aquelas estradas!). Sabendo disto de antemão, o Pombo tinha já o seu plano delineado, cuja primeira parte envolvia introduzir-me com um grupo de 8 partidários e partidárias na base americana (éramos poucos, mas alguns de nós têm um mau feitio lendário, o que foi muito útil para intimidar o inimigo ianque), passando por um campo minado, cortando a cerca de arame farpado, livrando-me dos guardas nas torres de vigia, dos navios e aviões e desbaratando um batalhão de marines americanos para poder chegar a acordo com centenas de prisioneiros talibans e terroristas da Al Qaeda sedentos de sangue. Como vêem, era canja!

Após uma cena apocalíptica digna de um filme do Rambo, aproximei-me das jaulas onde se encontravam os fundamentalistas islâmicos e, no meu melhor árabe, anunciei: "Al-arshbaatir mec` rallah!" o que, em português, significa "companheiros, estou disposto a libertar-vos a todos caso concordem em juntar-se a mim e ajudar-me a destronar o comunista Fidel Castro - que no fundo é como os soviéticos que conheceram no Afeganistão, mas mais pictoresco - e fundar a República Islâmica de Cuba!" (como vêem, a lingua árabe é bastante poupada em palavras). Eles aclamaram-me como seu sheik e, uma vez soltos, marcharam sob as minhas ordens em direcção à capital.

Impõe-se um esclarecimento sobre os talibans e os terroristas da Al Qaeda, acerca dos quais corre muita desinformação. Na sua maioria, são gente boa, seres humanos sensíveis e carinhosos, simplesmente passam-se um bocado com uns copos a mais (tal como os ingleses, com a diferença de estes últimos, por regra, não terem acesso a lança-rockets e baterias de mísseis terra-ar). Com eles aprendi muita coisa, como por exemplo a transformar uma caixa de fósforos numa Ak 47 e uma ak 47 numa caixa de fósforos.

Quando marchei sobre Havana com várias centenas de talibans de olhar psicótico, a cidade não ofereceu resistência. Aliás, fiquei admirado como tanta gente subitamente parece disposta a oferecer-nos bebidas quando entramos num bar com 200 fundamentalistas islâmicos treinados para matar nas montanhas do Afeganistão (nota mental: experimentar para ver se resulta no Bairro Alto).

Invadimos o palácio presidencial, e surpreendemos Fidel na retrete a ler "O Código de Da Vinci". Anunciei "Presidente Fidel, nós viemos para..." e ele não me deixou terminar "Sim, sim, eu sei. Vieram tomar o poder, não é? Querem que lhes mostre os gabinetes? Se você ficar com o meu, olhe que a porta da segunda gaveta da secretária está um pouco empenada, só abre com um truque especial que lhe vou ensinar!". Fez as malas, e saiu, parecendo feliz. Mais tarde dir-me-iam que lhe tirara um peso de cima, pois há anos que ele pensava abrir um resort de turismo revolucionário para militantes do Bloco de Esquerda no nordeste brasileiro.

O que a seguir se passou pertence à história: no meu primeiro discurso como presidente de Cuba ordenei que doravante haveria liberdade de imprensa e de expressão, anunciei para breve eleições livres, ameacei os Estados Unidos de enviar para lá os milhares de estudantes universitários portugueses bêbedos em viagem de finalistas em Varadero caso não abolissem o embargo sobre Cuba (o que George Bush fez de imediato). Quem não ficou a princípio muito contente foram os "meus" fundamentalistas islâmicos, que ao longo de todo o discurso me davam cotoveladas e segredavam "Não te esqueças daquela parte da República Islâmica de Cuba!", mas ficaram satisfeitos quando, a pensar justamente neles, legalizei a poligamia, e hoje em dia todos eles são pacatos cidadãos cubanos, perfeitamente inseridos na sociedade e dedicando-se em sua maioria à floricultura e ao canto lírico.

Passada uma semana, o glorioso exército cubano, sob o meu comando, e com o auxílio dos talibans, conquistou a ilha vizinha da Jamaica, porque o governo do Pombo Incontinente considerou que o povo cubano andava muito cabiz-baixo, pelo que não lhe faria mal ter acesso a outros recursos naturais fumáveis além do tabaco. A minha popularidade subiu em flecha. O povo idolatrava-me!

Foi então que me deparei com um dilema: voltar ou não voltar a Portugal? Hmmm, de um lado tinha a presidência de uma ilha nas Caraíbas, com toda a praia, sol, charutos, lagosta, daiquiris que conseguisse meter no bucho; de outro, tinha a perspectiva de dois meses de trabalho escravo para terminar o curso de direito numa republicazita cinzentona no Atlântico norte... Hmmm "now, that`s a tough call!". O Fidel telefonou-me de Porto de Galinhas, perguntando-me se não lhe arranjava um lugarzinho de secretário de Estado ou presidente de um instituto qualquer, pois começava a achar o nordeste brasileiro um bocado parado, sem dissidentes para torturar, e os tipos do Bloco de Esquerda começavam a meter-lhe nervos com as suas conversas sobre Noam Chomsy e alimentação vegetariana. Aproveitei a deixa e anunciei-lhe que poderia retomar a presidência, ao que ele me agradeceu e anunciou que caso eu ainda estivesse por Cuba quando ele regressasse, me enviaria uma caixa de cohibas robustos para a cela solitária em sinal de gratidão.

E assim terminei a minha breve, mas brilhante carreira de revolucionário.

Uma private para as minhas companheiras e companheiros de viagem: que a Cena esteja convosco! A verdade é quase mais bizarra que a ficção, não é? Um grande abraço, pessoal!

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