terça-feira, novembro 30, 2004

 

Americanos burros (é redundante, eu sei)

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Há uns anos atrás (antes do 11 de Setembro... Imagino que hoje se mantenha, por maioria de razão), ao requerer um visto para entrar nos Estados Unidos, era-se obrigado a preencher um enorme questionário que, entre perguntas sobre quanto tempo iriamos lá ficar, com quem etc. estavam encravadas estas duas:

Are you or have you ever been or do you plan to become a member of any kind of terrorist group or association?
[YES][NO]

Do you intend to enter the United States of America in order to perpetrate, take part or in any way contribute to any kind of terrorist action within the territory of the United States of America aimed at overthrowing its government, political system or way of life or in any way endanger American national interests?
[YES][NO]

Assim se vê a fé dos americanos na humanidade: toda a gente sabe que um tipo pode matar 5000 civis com uma bomba, isso ainda é cumó outro, mas mentir num questionário é que é muito feio!

Aliás, a única razão pela qual os terroristas do World Trade Center conseguiram entrar nos EUA foi porque não se incluiu no questionário:

Come on, be honest! You ain`t fooling no one but yourself, and you won`t be able to do whatever it is that you terrorists do if you keep the remorse of having lied, because LYING IS BAD!
Are you a terrorist (we won`t tell anyone)?
[YES][NO]

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Massajadores de Ego e "Rebounds"

Todos nós os conhecemos. Convivemos com eles no quotidiano. Na bicha do banco, no balcão do café. Trabalhamos com eles e vamos com eles ao ginásio (estamos a falar hipoteticamente, ok?!!). Estão por todo o lado, são pessoas como nós (bom, como vocês porque nós somos entidades passarídeas superiores e sofisticadas - e vestimo-nos bem). Mas escondem uma identidade amiúde secreta, uma mágoa sem igual. Para sempre viverão na clandestinidade a menos que algum dia a revolta ocorra.


Eles SÃÃÃÃOOOOO (ouvia-se um rufo, para dar suspense à coisa) Massajadores de Ego e "Rebounds".

Mártires pela causa do amor, caracterizam-se pelo sentimento de frustração presente nas conversas que remetem à pessoa que deles se serve. Assemelham-se frequentemente a tapetes, porque a metáfora se torna realidade. São aqueles rapazes que têm um porradão de amigas. Raramente conseguem manter relações normais. Aliás, frequentemente nunca as tiveram e destacam-se no seu meio por isso.

Um ME pode sê-lo isoladamente, mas pode ser cumulativamente Rbd. Já este segundo é necessariamente acompanhado da faculdade de ME.

Vejamos alguns exemplos (acreditem, estas pessoas existem, JUROOO).

Ele era a pedra do sapato de Maria com quem já tinha andado nos amassos quando saíam de vez em quando. Aliás, as saídas acabavam sempre no mesmo. Descobre que este entretanto começa a namorar com outra pessoa e intermitentemente continua na marmelada com ela todas as semanas.

Características do Indutor: Apesar de desinteressante enquanto pessoa (física e intelectual), o que para um indefeso MER é irresistível, não "precisava" de ME nem Rbd.

Solução: Estatisticamente, estes tendem a superar-se com o tempo e são dos poucos casos que têm salvação. Maria acaba por esquecer o Costinha. E este também já não namora com a outra rapariga.

Adavam juntos na faculdade e Carlos revela a Sofia o seu interesse por ela. Esta mantém-o sempre por perto para ir com ela a todo o lado e para que ele lhe faça favores da mais variada ordem. Ele é um rapaz de intelecto apurado e de modos requintados, o que agrada sobremaneira a Sofia, já que assim obtém rasgados elogios sobre a sua pessoa, de uma amneira global. Vão tendo algumas intimidades mais superficiais. Dá evasivas quando confrontada com a situação.

Indutor: Este tipo de indutor é dos mais perigosos, caracteriza-se por manter o interesse indeterminadamente na medida em que cruelmente vai emitindo laivos de interesse. Têm sede de idolatria e favores. Pode tornar-se implacável se não domado devidamente.

Solução: Genericamente, uma simples revolta resolve a situação. Se o ME não se acobardar e der o Grito do Ipiranga, as coisas tendem a compôr-se. Agora namoram, vejam lá.

Este terceiro tipo que vos mostro, é crónico. Adianto-vos desde já que não conheço nenhum caso de sucesso.

Este integra-se numa das características que tende a ser comum a muitos massajadores, é estudante de engenharia. Muitos massajadores o são. Ele foi massajador mais do que uma vez, até das rapariga de quem não gosta assim tanto. É prestável e não necessariamente feioso. Gostam sempre da rapariga que nunca poderão ter, a Carlota que namora com o Caló, que é um bruto (mas quase sempre, uma GRANDE CAMA, por isso é que estão sempre a acabar, mas a coisa mantém-se), e ela frequentemente precisa de um ombro para encher de ranho. Aliás, desengane-se quem pensa que os massajadores são uns feiosos frouxos "naquilo", pelo contrário, de tanta vontade de agradar desenvolvem uma ímpar perícia sexual.

Agora, caros leitores, a estes exemplos, eu podia acrescentar muitos mais. E nem precisava de inventar, conheço-os! Contudo tenho mais que fazer do que partilhar estas singulares teorias decorrentes da minha apuradíssima perspicácia psicosociológica. Enfim, não deconsiderem o que acabam de ler. Pode ser que se apercebam que também são MER. Não tem vergonha nenhuma.



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sexta-feira, novembro 26, 2004

 

Sugestões de prendas de Natal (porque existe vida para além do par de peúgas) #1

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"Legalidade e Administração Pública - o Sentido da Vinculação Administrativa à Juridicidade", de Paulo Otero (ed. Almedina).

Barba ligeiramente por fazer, olhar esquivo e óculos minúsculos, voz afectada de padre de aldeia, ele é PAULO OTERO, o verdadeiro Homem da Conspiração!

Se não foi ele o autor da hermética pergunta do referendo sobre a Constituição Europeia, bem poderia ter sido. O livro são mil cento e noventa e duas páginas da mais pura masturbação intelectual, em que o autor nos conduz pela sua mirabolante teoria da conspiração, através da qual tenta provar-nos que Portugal não é um verdadeiro Estado de Direito, antes um Estado pseudo-democrático-totalitário, assente numa legalidade meramente autovinculativa, programática e principológica, na neofeudalização dos pólos de decisão administrativa e neo-corporativização da actuação política.

Perceberam? Nós também não, com a agravante de termos um exame sobre isso em Fevereiro.
De resto, que esperar de um homem que numa aula se sai com a frase "Como todos vocês já sabem desde pequenos, os actos administrativos constitutivos de direitos ou interesses legalmente protegidos dos particulares são irrevogáveis, nos termos do artigo 140º do Código de Procedimento Administrativo..."?

Uma excelente opção para oferecer às vossas namoradas, que assim ficarão convencidas de que não vos andam a dar sexo suficiente (com tudo o que de bom daí advém) e, quem sabe, até aprender alguma coisa.

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quinta-feira, novembro 25, 2004

 

O Pombo desanca os seus leitores

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Não, não e não!! Hoje não escrevo post nenhum. Recuso-me!
Eu bem vos conheço, vêm para cá com falinhas mansas "Ai tão giro, ó Pombo", "Ó Pombo, diz lá mal do Paulo Portas p`rá gente se rir", e no entanto não me querem pela minha personalidade, não me querem pela minha simpatia e hospitalidade, não me amam pelo meu corpo (se bem que isso não seria mau), VOCÊS SÓ ME QUEREM PELOS MEUS POSTS, INTERESSEIROS!!

Sinto-me usado.
E depois vem um gajo cansado do dia-a-dia, e dizem "Atão Pombo, quero um post novo!". E a cuzinho lavado com águinha de rosas, não querem, não? Acaso um Pombo é escravo dos seus leitores? Acaso um Pombo não tem sentimentos? Bolas, pá! [neste momento o Pombo atira com um vaso Ming contra a parede]. Se querem um post, façam-no vocês, vadios, trastes, pulhas, sacripantas, malandros!

A minha mãezinha bem me avisou que isto de escrever para vocês tinha muito que se lhe diga! Por exemplo: quantos de vocês é que alguma vez começam um comentário com um "Bom dia, Pombo!" ou "Boa tarde, Pombo!". É o mínimo, não acham?? E já agora, porque é que não terminam os comentários despedindo-se, como manda a educação, com um "Até logo, Pombo", "Tem uma boa tarde, Pombo".
E, como eu não sou menos que os outros, quando não tiverem nada para dizer, porque não falam do estado do tempo, para encher conversa, tipo "...Hmm... bom... Pois... Enfim, já comentei o teu post... Está um tempo bonito, não está? Frio, mas solarengo... Tempo bom para as favas e as hortaliças! Tem uma boa tarde, Pombo". Eu cá sou pelo menos tão desinteressante como os vossos amigos e colegas, pelo que exijo ser tratado de igual modo!

Isto tem que mudar! Por essas e por outras, hoje não escrevo post.

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quarta-feira, novembro 24, 2004

 

O segredo que os comentadores desportivos não queriam que vocês soubessem

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Como gosto de futebol, mas tenho pouco tempo para ver jogos e fraca memória para me lembrar de informações que podem vir a ser úteis mais tarde para atirar à cara do adversário durante as discussões, um valioso expediente da minha retórica futebolística, que aprendi ao ouvir a "Bancada Central" da TSF, é inventar factos de épocas passadas das quais já ninguém se lembra e ninguém se vai dar ao trabalho de confirmar.
Quase sempre resulta. Quase…

LAMPIÃO: “Atão Pombito, parece que o teu Sporting levou na fuça.”

POMBO : “Tu cala-te! Vocês lampiões têm é a memória curta. Já se esqueceram do baile de 7-0 que levaram de nós em 1976?”
(dizê-lo com convicção doutoral é uma arte que se aperfeiçoa com o tempo)

LAMPIÃO: “Interessante… Quem é que marcou os golos?”

(Pombo começa a engasgar-se)
POMBO: “O primeiro e o terceiro foi aquele gajo… O Óscar Peixoto, outros quatro foi o “Petinga” e outro do “Saca-Rolhas”.”

LAMPIÃO: “Não me recordo desses jogadores… Mas também, lagartos, não admira! Foi no Sporting-Benfica da quinta ou da 11ª jornada?”

(Pombo nervoso, escolhe uma à sorte)
POMBO: “Foi na 11ª, pá, não se está mesmo a ver?!”

LAMPIÃO: “Deves estar enganado. Nessa ganhámos 3-1.”

“Merda!”, pensa o POMBO.
“Uff! Ainda bem que o gajo não notou que eu tava a inventar”, pensou o LAMPIÃO.


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terça-feira, novembro 23, 2004

 

Vem aí a Mulher Albanesa Emancipada! (Cruzes canhoto, fujamos!)

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No fim de semana encontrei cá por casa uma das leituras do meu pai dos tempos do PREC ( o paizinho, como toda a gente, na altura era comuna ou, como ele prefere, "marxista-leninista-maoista-neo-estruturalista-internacionalista-de-2ª-geração ou coisa do género): "A Libertação da Mulher Albanesa" (!!), de Enver Hoxna (ed. Germinal, Lisboa, 1975):

"É por isso que a emancipação da mulher na nossa Pátria Socialista não pode ser compreendida como num país burguês. Certamente nesse domínio fizemos os necessários esforços para recuperar o tempo perdido. Mas a emancipação da mulher albanesa não tem nada em comum com isso que chamam "emancipação" das bonecas da burguesia. A emancipação da mulher albanesa realizamo-la na via da revolução proletária, dentro do espírito marxista-leninista."

Imagino perfeitamente o meu pai, com a sua barba à Che e óculos de massa, a assentir com a cabeça, concordando na íntegra. 30 anos depois, aqui tens, paizinho, a boneca burguesa e a tua Mulher Albanesa Emancipada (obrigado por não teres casado com a segunda)...




ADRIANA KAREMBEU
Nascida em 1971, na Eslováquia.
Imigrou para Paris para prosseguir uma carreira de modelo. Casada com um jogador de futebol. Uma "boneca da burguesia".




IVANA GALAPOVA
Nascida em 1971, na Albânia.
Trabalha na fábrica de pneus para tractor da Cooperativa Industrial "Unidos e Organizados Venceremos", em Tirana.
Denunciou os pais ao regime aos 5 anos. Duas vezes Miss Ditadura do Proletariado (1983 e 1984)
A falta dos atributos de beleza próprios da visão capitalista e alienada da Mulher é largamente compensada por um impressionante currículo de 25 anos de dedicação ao Partido.


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segunda-feira, novembro 22, 2004

 

O JaZz saiu à Rua...

Esses músicos de Jazz têm com cada uma que mete nojo. São a raça mais ingrata e... bom, não posso dizer burra, atentando ao facto de que estes... ammm, caramba, BURRA!, que eu alguma vez conheci, logo a seguir à Babi e às meninas da Kökai em relação a uma pessoa que eu (ou todos nós...) cá sei. Mas isso é outra história. História, aliás, que já cansa.

Bom, a verdade, digam o que disserem, é que se essas alminhas vendem alguma coisa, o que quer que seja é porque, admitamos, o Jazz está na moda.

Mas antes de irmos por aqui, falemos dos caríssimos estudantes do Hot Clube de Portugal. Ahhh, esses diamantes em bruto, esses deuses em potencial! Eles, os detentores do monopólio jazzístico lisboeta. Ok, transformem lá o HotClub em Kapital do jazz se quiserem , mas para se fazer isso, convenhamos, há que ter uma certa legitimidade. Para nos tornarmos exclusivos e selectos, temos que nos "exclusivisar". Sim, são excelentes alunos, mas o facto de vedarem o seu previlegiado palco a quaisquer outros formandos do meio, transparece um pânico de que o seu lugar ao sol lhes seja tirado, falta de segurança, pânico de descobrir que há um porradão de gente brilhante na música. Sentem-se ameaçados, é a única explicação que eu encontro.
Aqui é que está o grande paradoxo... de tão vanguardistas, acabam por tornar-se na antítese de si próprios.

Mas isto é apenas um amargo desabafo, de quem tem uma valente dor de cotovelo de não chegar aos calcanhares do mais medíocre curioso. Não me levem a sério.

Falemos de vocal jazz. A Diana Krall é comercial? "Ah, eu toco um instrumento e não gosto de jazz cantado.". Opá, espera um bocadinho que eu vou ali vomitar, já volto. É disto que falo. Não querendo aprofundar-me demasiado, remetendo às raízes do bebop, parece que há muita gente por aí que sofre daquilo a que costumo chamar de "amnésia selectiva" (conceito a desenvolver daqui a uns meses). Lady Ella. Diz-vos alguma coisa? Também me pareceu que sim. E é desta maneira que aparecem as quezílias doutrinárias em qualquer âmbito. E é assim que nas ce o complexo generalizado anti jazz vocal. Não percebo... será que a ideia é manter-se sempre afastado do que as "pessoas que ouvem música normal" gostam? Nesse caso, muitos parabéns, levem lá a torradeira. Se fizermos uma pesquisa muito superficial (as piriquitas são sempre superficiais), dentro do universo bloguístico (urgh, que palavra abominável - é que eu gosto de jazz, por isso não posso usar as palavras que todos usam em determinado momento), vamos ver aqui uma das cagadas do alto, CJUB http://charutojazz.blogspot.com/ (o meu NIB 1231 54554 2655 54, Pombo, negócio em ascensão![yuck, Ascensão]) .Vejamos a sua selecção. Contem os cantores. Agora vejam mais uns quantos sites de Jazz. Voltem a contar os cantores.

I rest my case.

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sexta-feira, novembro 19, 2004

 

Dedicado aos Nazis Anti-Tabaco (fumem aqui a ver se eu deixo)

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Proibir o tabaco nos locais públicos é para mariconsos amadores. A minha primeira medida quando alcançar o poder:

Decreto Ditatorial nº. 1/2004,
de 22 de Novembro de 2004

Tendo em conta que o ser humano, ao respirar, inspira Oxigénio e expira uma substância conhecida como Dióxido de Carbono (CO2);

Considerando que o Dióxido de Carbono constitui um agente poluente, com ou sem hálito a cebola, responsável pelo embaciamento de vidros e pelo sobre-aquecimento de espaços confinados, entre outros efeitos nefastos;

Tendo em conta que a exalação de Dióxido de Carbono indicia a presença de um vício cuja propagação o Estado tem o dever de combater, pois todos os cidadãos que desenvolvem uma dependência da respiração têm sérias dificuldades em curar-se, verificando-se que aqueles que o tentam morrem ao fim de alguns minutos, tal é a intensidade do vício;

Tendo em conta que o Dióxido de Carbono exalado afecta não apenas aquele que respira, como aqueles que o rodeiam, constituindo um inegável problema de Saúde Pública;

Considerando os resultados insatisfatórios atingidos noutros países pelas normas que impunham a criação, nos espaços confinados abertos ao público, de zonas para pessoas que respiram e zonas para pessoas que não respiram;

O Pombo, com base nos poderes em que se encontra investido por direito divino, decreta o seguinte, para entrar em vigor imediatamente:

Artigo Único
(Emissão de Dióxido de Carbono por via de exalação)

1. É proibida a libertação de dióxido de carbono por via do processamento de ar pelo sistema respiratório em todo e qualquer local confinado destinado a uso pelo público, designadamente;
a) Edifícios onde funcionem órgãos ou serviços da administração pública;
b) Locais de trabalho fechados;
c) Restaurantes, bares e outros estabelecimentos comerciais.
2. Todo aquele que libertar Dióxido de Carbono num dos locais acima indicados, incorrerá numa coima no valor de 2000 euros, bem como na sanção acessória de proibição de respirar, que poderá ir dos 2 meses a 1 ano, em função da gravidade dos danos causados à saúde pública.

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quinta-feira, novembro 18, 2004

 

Como se mata um yuppy IV – O último episódio!!!

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A meia-hora passada a sós com o Sócio Nº 2 havia deixado Soraya com um amargo de boca — Soraya começava a achar que isso já vinha sendo hábito nos últimos dias, e suspirou de saudade pelo pobre Lourenço e suas ampolas de tutti frutti. A “tortura tailandesa” falhara e ela, estando habituada a que os homens deitassem cá para fora tudo o que sabiam assim que lhes dava uma roçadela facial com grande plano mamário, não percebia o que correra mal. “Outro panilas, de certeza!”, pensou, “Este meio está recheado deles!”. O Sócio Nº 2 limitou-se a dizer que não fazia ideia do que ela estava a falar, enquanto suplicava que não parasse o que estava a fazer.

No dia seguinte tocou o telefone sobre a sua secretária.
“Estou sim?”
Do outro lado, a voz cavernosa do Sócio Nº 2.
“Soraya, olá… Importa-se de vir até cá acima ao meu gabinete?”
“Outra vez, Nº 2? Anda um maroto!”, exclamou.
“Desta vez não é por isso, minha linda. Venha depressa, que é urgente”.

Soraya fez um esgar de enfado. Detestava ser interrompida quando lia o seu blogue favorito, o Pombo Incontinente & Piriquita Indigente. “Que charme, que cavalheirismo, que fino sentido de humor tem aquele Pombo!”, pensou. Só de ler os seus escritos, vinham-lhe os calores com o irresistível magnetismo do managing partner do blogue. Também gostava muito do Frangos para Fora, da Rititi e do Alguidar Pneumático (e quem mais quiser publicidade assim de mão beijada, transfira já €50 para a minha conta).

Havia algo naquele convite que lhe soava suspeito, pelo que resolveu levar consigo uma arma que guardava na gaveta, por uma questão de precaução (na gaveta de todo o consultor fiscal existe uma arma, com várias utilidades: desde logo porque “apunhalar pelas costas" é hoje em dia um pouco primitivo e, por outro lado, os colaboradores da Seymour Deek estavam proibidos de pôr termo às suas miseráveis existências atirando-se da janela, para não sujarem os lugares de estacionamento reservados a sócios).

No gabinete do Sócio Nº 2, o pior cenário imaginado por Soraya confirmava-se: este aguardava-a, de pé, com o coordenador Bernardo do Valle ao seu lado.

“Soraya, Soraya, Soraya…” suspirou o Número 2, “Porque andou você em busca da verdade? Podia ter-se mantido quietinha no seu canto, mas não! Tinha que se vir meter no nosso caminho!”

Soraya estava paralisada de medo.

“Tudo foi feito no maior secretismo, até você aparecer, e quase dava cabo dos nossos planos! Quer saber a verdade?? Prepare-se, que vai sabê-la agora!”, anunciou Bernardo do Valle, em tom ameaçador, enquanto fechava a porta do gabinete.

“AHAHAHAHAHAHAHAH!!!” riram os dois em coro, estilo vilões de filme do Batman.

Soraya sabia que teria que pensar rápido se queria sair dali viva. Os seus orifícios corporais não a salvariam agora, tinha que agir!
Tirou a pistola do soutien (vocês admirar-se-iam com tudo aquilo que pode caber no soutien duma mulher) e, sem dar tempo de reagir, desfechou um tiro na testa do coordenador Bernardo do Valle. Virou-se para Nº 2, que a olhou admirado, e disparou dois tiros sobre o seu peito.

“ Porquêêê??”, murmurou Número 2, que se esvaía em sangue.
“Vocês iam matar-me!! Tal como fizeram com o Lourenço!”
“O Lou… Lourenço? De que está a falar??”
“Eu ouvi a vossa conversa no funeral dele! Você disse que tinham feito o que era preciso, pois ele sabia demais!”
“Sua mula!”, gemeu o Número 2. “Nós estávamos a falar do Sr. Deek! Tínhamos combinado entre os sócios e colaboradores séniores fazer-lhe uma pequena surpresa e oferecer-lhe uma poltrona de massagens para o gabinete, pois ele anda sempre a queixar-se das costas. Mas uma coisa correu mal: ele leu um email da Divani & Divani que era a resposta à minha encomenda e eu, para disfarçar, tive que fazê-lo acreditar que a poltrona era uma prenda de anos de casado para a minha mulher. Era disso que estávamos a falar… Eu… Eu…”

A cabeça do sócio tombou para trás e a vida abandonou-o.
Na cabeça de Soraya as ideias chocavam em turbilhão. Que fazer? Fugir? Confessar o seu crime? Suicidar-se?

No gabinete ao lado, uma multidão cantava os “parabéns a você”. Era a surpresa do Sr. Deek. Ninguém ouvira os tiros pois ao mesmo tempo que ela disparou, saltaram com estrondo as rolhas do champanhe.

Soraya limpou as impressões digitais da arma, atirou-a fora, mordeu o lábio, ajeitou o decote e deixou o gabinete entregue aos mortos, para se juntar à festa. Se interrogada, acusaria outrem que lhe interessasse tirar de circulação.

Continuava a não saber quem matara Lourenço, mas quem se importa com essas coisas quando há champanhe e bolos à borla?

FIM

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quarta-feira, novembro 17, 2004

 

Falta um dia!...

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O Pombo Incontinente & Piriquita Indigente anunciam aos seus leitores que o último episódio da saga "COMO SE MATA UM YUPPY" será publicado amanhã.
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O texto encontra-se guardado, por razões de segurança, num cofre cuja chave se encontra em poder do Pombo (pelo sim pelo não, a chave foi engolida, devendo terminar o seu trajecto pelo sistema digestivo às 8 da manhã de amanhã, hora a que será aberto o cofre e revelado neste blogue o desfecho da história).
Além disso, o cofre encontra-se protegido por uma combinação de 6 dígitos, dos quais cada um de nós apenas conhece metade.
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Enquanto aguardam, continuem a divertir-se com as aventuras fálicas de Manuel Fraga Iribarne (vide infra) e fiquem com o Pensamento do Dia (gentilmente enviado pela (Indis)Pensável Ana Afonso*)...
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A GERÊNCIA
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*Antes que perguntem, não, não é essa Ana Afonso que vocês estão a pensar... Rebarbados!

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terça-feira, novembro 16, 2004

 

E você, já teve o seu momento freudiano do dia?

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Apresento-vos o Manel. Doutor em Direito, antigo ministro de Franco e presidente da "Xunta" da Galiza, que se notabilizou por se recusar a interromper a sua caçada aquando do desastre do Prestige, o Manel é o que se chama um gajo com eles no sítio.

Janeiro de 1966: Manuel Fraga Irirbarne, após a queda ao mar de um avião levando uma carga de ogivas nucleares, perto de Almeria, toma um banho na praia com o embaixador dos EUA para mostrar ao mundo que a zona não se encontra contaminada.



Novembro de 2004: Manuel Fraga Iribarne recebe das mãos de Barata Moura o título de doutor honoris causa* da Universidade de Lisboa. Mas, como já vem sendo hábito ao longo da sua vida, há antigos assuntos que é impossível não virem à conversa...



* Doutoramente certamente atribuído pela revolucionária doutrina "la calle es mia", que cunhou em 1976 quando, enquanto ministro do Interior, a polícia reprimiu a tiro uma manifestação de trabalhadores, no País Basco, resultando em 5 mortos e 33 feridos...

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segunda-feira, novembro 15, 2004

 

Doctor Santanenstein (para não dizerem que tenho a mania da conspiração)

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Santana anuncia no congresso do PSD que quer liderar o Governo até 2014.
O congresso não deixou dúvidas: Santana Lopes encontra-se oficialmente afectado pelo Síndrome do Vilão-dos-Comics-Que-Quer-Dominar-O-Mundo.

Se alguns hesitavam perante o ar Mafia-chic, o cabelo luzidio puxado atrás e os ataques à liberdade de imprensa, basta olhar para o palco do congresso, as cores berrantes e o logotipo estilizado do PSD sobreposto a um globo terrestre, para ver que os sociais-democratas se inspiraram nas conferências dos coloridos vilões do Batman e James Bond.

Ora vejam:






Enquanto Santana discursava, diz quem viu que Morais Sarmento esfregava as mãos dizendo "Sssim, Mestre!! Ihihihihh!!"


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sexta-feira, novembro 12, 2004

 

Introdução à vida académica IV - Quatro anos de bacoradas

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Após longa reflexão, o Pombo decidiu tornar parcialmente pública a lista das melhores bacoradas a que assistiu em quatro anos na Faculdade de Direito de Lisboa e que secretamente compilou. Finalmente chega aos olhos do público parte do venerado e temido Liber Ivris Bacorvm Olisiponensis .


“E o presidente de Inglaterra, como é eleito?”
Águeda, 1º ano, aula de Ciência Política e Direito Constitucional

“O nível de abstinência é um grave problema da democracia”
Sofia, 1º ano, aula de Ciência Política e Direito Constitucional

“Por exemplo: Mary, cidadã britânica, grávida de 15 meses...”
Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, no manual de Introdução ao Estudo do Direito

“No meu tempo as marronas eram umas criaturas feias, com óculos de fundo de garrafa, mas hoje em dia são todas jeitosas!”
Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, durante uma entrega de testes, (cometendo um embaraçoso faux pas, porque no momento a seguir aparece para receber o teste uma “marrona à antiga”)

“O nível da incapacidade incidental tem que ser aferido casuisticamente, porque há vários graus de bebedeira... Com os senhores bem sabem!...”
Mestra Mª Lurdes Pereira, assistente de Teoria Geral do Direito Civil

“Pense-se na restituição de um peace-maker...” [em vez de “pace-maker”]
Prof. Menezes Cordeiro, no manual de Teoria Geral do Direito Civil

“Eu não quero que os meus alunos tenham mentalidade de funcionários públicos!!”
Mestre Luís Pereira Coutinho, assistente de Direito Administrativo I (esquecendo por momentos que também ele trabalha no sector público)

“Trazerem cábulas é uma falta de respeito para com os vossos colegas (...) Para o exame, os Códigos Civis devem vir VIRGENS!”
Mestre João Marchante, vigiando o exame de Teoria Geral do Direito Civil

“A União Europeia tem três “pilares” essenciais (...) Só que um é grande, uma verdadeira pilastra, os outros dois são mais mirrados, são pilaretes.”
Profª Maria Luísa Duarte, aula de Direito Comunitário, numa tirada altamente freudiana.

“Numa federação, o Direito dos estados federados submete-se ao Direito federal, ao Direito da Bunde” [nota: para quem não sabe, “Bunde”, em alemão, lê-se “bunda”]
Dr. Tiago Antunes, assistente de Direito Constitucional II e Direito Internacional Público.

“Nós, os brancos...”
Prof. Fausto de Quadros, numa aula (ele é indiano!)

“Nas diversas definições para o conceito de Organização Internacional há dois elementos (...): o elemento organização (...) e o elemento internacional” [brilhante dedução...]
Profs. André Gonçalves Pereira e Fausto de Quadros, in Manual de Direito Internacional Público

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Rapidinha

Resolvi passar por aqui só para dizer olá.

Portanto: Olá!

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quinta-feira, novembro 11, 2004

 

Deixai vir a mim as criancinhas

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Aproveito para transcrever a simpática carta da Joana (9 anos), da Lourinhã, que nos enviou um bonito desenho da sua autoria.

Querido Pombo,
Gosto muito dos teus posts no blogue. És o melhor pombo da blogosfera (também és o único, mas não faz mal). Espero que gostes do desenho que fiz para ti e o pendures no teu quarto.
Beijinhos,

Joana




Se gosto do desenho?? Quando o vi até me benzi, criança! É essa a visão terrível que os miúdos da tua idade têm da minha pessoa? A cena mais parece tirada do Guernica!!
Além disso, não posso deixar de te dar uns quantos conselhos técnicos, se a tua intenção é fazeres carreira nas belas-artes:
1º O sol é uma estrela formada essencialmente por gases voláteis que ardem a milhões de graus centígrados. Tu achas mesmo que ele tem olhos e boca para sorrir com ar de pervertido?
2º Deverás ter igualmente em atenção questões de proporções e perspectiva. Se não me choca demasiado que a minha figura apareça como maior do que a populaça sobre a qual defeco (na verdade, lisonjeia-me como uma metáfora para dizer que o Pombo é "larger than life") , já um sol daquele tamanho cremar-nos-ia a todos instantaneamente;
4º Quanto às dimensões anatomicamente desproporcionadas dos objectos com aspecto de bolsas que desenhaste sob o meu baixo ventre, que eu presumo humildemente tratarem-se dos meus testículos (será que um pombo os tem?)... Espero sinceramente que não estejas a querer insinuar alguma coisa sobre a minha vida sexual! Interpretá-lo-ei como outra metáfora lisonjeira, pois sou um pombo com cojones. Contudo, nota que duvido seriamente que conseguisse levantar voo com aquele peso todo.

Enfim, continua! Tu estás !

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quarta-feira, novembro 10, 2004

 

Como se mata um yuppy III – O 13º Andar

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A estagiária Soraya dedicava agora a maior parte do seu tempo a pensar no estranho caso da morte de Lourenço, tentando juntar as peças.

As suas investigações preliminares haviam fracassado: tentou persuadir o rapaz-de-boas-famílias-afilhado-do-Sr.-Deek a revelar-lhe o que sabia do caso, mas mesmo ajoelhando-se (e não para suplicar), depressa percebeu que não iria dar em nada (“Sotôr, sei de uma coisa que tanto eu como você queremos muuuuito!”, respondendo-lhe ele “Eu também sei, filha: engatar homens! E depois??”). Numa noite conseguiu sacar ao gajo-que-estava-prestes-a-passar-a-sócio-porque-bufava-de-toda-a-gente-aos-superiores quem andava a roubar clips do escritório, quem deixava a retrete suja e quem andava a declarar facturar horas a mais do que aquelas que fazia, mas não, não sabia quem tinha morto Lourenço.

A única forma de saber a verdade era subir ao 13º andar.

O 13º andar. O andar dos gabinetes dos sócios da Seymour Deek Consulting, incluindo do próprio Sr. Deek. Local temido por todos, onde os telemóveis perdem a rede e as pessoas desaparecem sem deixar rasto por dias a fio.

Abriram-se as portas, Soraya ainda retocava o baton e abria um botão extra da blusa, “just in case”, em frente ao espelho do elevador.
O 13º andar estava mergulhado num silêncio sepulcral. Um pobre desgraçado, suando em bica e com olhar aterrorizado, encolhia-se por debaixo duma das mesas das secretárias.
“Não fique aí! Você tem que fugir! Eles estão quase a vir!”
“Eles quem?”, perguntou Soraya.
“Quando o sino der sete badaladas e meia... A banda…”
Soraya pensava que o tipo devia ser um dos workhalics lunáticos de que falavam as lendas do andar 13º, quando ecoaram pelo corredor 7 badaladas e mais um frouxo “Cling!”. O sujeito estranho, soluçava desesperadamente, escondendo o rosto com as mãos. Ao fundo do corredor ouvia-se uma multidão de vozes, bombos, cuícas, reco-recos, violões. Soraya, assustada, refugiou-se junto ao pobre diabo, espreitando à medida que o barulho se aproximava.



Uma manada de fiscalistas e gestores em tronco nu e gravatas atadas à testa e auditoras de peito nú sambavam sobre as carpetes do 13º andar. O próprio Sr. Deek (que ela apenas conhecera das fotos em estilo estalinista espalhadas pelo escritório “Mr. Deek is watching you”), apenas com um penacho a tapar-lhe o baixo ventre, dançava com uma coroa de cartolina colorida na cabeça.

Tão depressa como apareceu, a banda sumiu-se pelos gabinetes e o 13º andar regressou à calma normal.

Afastou-se do homem que se mantinha escondido por debaixo da mesa e que acabava de urinar sobre as calças, e soltou um grito de horror.
O homem de negro que ela vira no funeral de Lourenço mirava-a, com ar de censura.

“A senhora não devia andar por estes corredores sem ser convidada… Arrisca-se a descobrir coisas que não gostaria de descobrir. A encontrar pessoas que não gostaria de encontrar…”, disse-lhe, numa voz cavernosa.
“Quem é o senhor?”, perguntou Soraya.
“Eu sou o sócio nº 2 desta empresa!”, respondeu.
“Como se chama?...”
“Para si é Número 2. É tudo quanto precisa de saber.”
“Bom, eu vou então voltar para o meu lugar… Prazer em conhecê-lo, Sr. Número 2…”
“Mas espere”, ordenou o sujeito, observando-a de alto a baixo. “Não quero traumatizá-la. Venha tomar um copo ao meu gabinete. Vou cancelar os compromissos por meia hora…”

Soraya ajeitou o decote e sorriu. Mudança de planos: iria tentar sacar-lhe uma confissão, através da “tortura tailandesa”… Blow a confession out of him.

A trama adensa-se. Será o Nº 2 realmente o assassino de Lourenço? Qual será o futuro da estagiária Soraya, uma vez capturada no 13º andar? Que planos secretos e macabros revelará o ÚLTIMO EPISÓDIO de “Como se mata um yuppy”??

Não percam!

CONTINUA…

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terça-feira, novembro 09, 2004

 

Procuram-se: ideias novas para guerras em África

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A França voltou a anunciar que não é sua intenção derrubar o presidente da Costa do Marfim. O Ministro dos Negócios Estrangeiros francês afirmou "Bom, derrubar derrubar também não, apenas talvez acertar um pouquinho as pontas..."

A verdade é que ninguém sabe ao certo porque é que rebentou a pancadaria na Costa do Marfim.
Com as imaginativas cruzadas no Médio Oriente, as guerras africanas têm-se revelado nos últimos anos como um modelo gasto e demodé.

O Pombo, tendo em conta a sua vocação sub-sahariana, pretende dar uma ajuda aos criativos e marketeers africanos, pedindo aos seus leitores que PREENCHAM OS ESPAÇOS com IDEIAS PARA GUERRAS EM ÁFRICA:

A República do/a ___________________ , no seguimento de violentos confrontos entre as etnias ___________ e ____________, ao longo da fronteira, declarou guerra à República do/a ______________ . Em causa estão os/as ________________________ . Os confrontos já causaram um fuga maciça de 20.000 refugiados para o país vizinho, a República do/a ________________ .

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quinta-feira, novembro 04, 2004

 

Como se mata um yuppy II – A Estagiária




“Bela madeira! Isto é carvalho do bom! A bicharada vai ter um trabalhão a furar isto! Quanto é que deu por esta maravilha?”, perguntava um dos colegas da Seymour Deek à viúva chorosa, enquanto batia com os nós dos dedos no caixão para demonstrar a solidez.
A empresa havia dado a manhã de folga aos seus funcionários para irem ao funeral de Lourenço, e entre os presentes circulava a folha de presenças para assegurar que nenhum deles teria aproveitado para ficar em casa a dormir. Ainda assim, os toques de telemóvel sobrepunham-se constantemente ao piar dos pardais, e lá se afastavam à vez os colegas engravatados para atender, contorcendo-se num esgar de quem pede desculpas.

Esforçando-se desesperadamente para vencer a eterna pergunta de “o que é que é suposto dizer num funeral”, os colegas de Lourenço sucediam-se nas homenagens fúnebres. O coordenador do departamento do falecido, Bernardo Sousa do Valle, confortou a viúva salientando o lado positivo da coisa “o IRS beneficia as mães solteiras!”. Soraya, a estagiária, exaltou as qualidades de metrossexual de Lourenço: “A morte do seu marido deixou-nos a todos com um sabor amargo na boca. Era um verdadeiro cavalheiro, que consumia daquelas ampolas que deixam o sémen com sabor a frutas à escolha”. Duarte, o colega que encontrou o cadáver de Lourenço atrás do arbusto, prometeu à viúva tomar bem conta do gabinete do falecido, “sobretudo das 200 gramas de cocaína que ele guardava numa gaveta e do vasto espólio erótico-fotográfico gravado no disco, fruto de anos de aturada pesquisa na Internet”.

Na pedra tumular lia-se “Aqui jaz Lourenço, domiciliado para a eternidade num Paraíso de regime fiscal mais favorável”.

Tanto ou mais desolada que a viúva estava a estagiária Soraya. Desde sempre soubera que a chave para o sucesso na Seymour Deek era conseguir manter a rapidez com que desabotoava a camisa pelo menos inversamente proporcional à sua rapidez de raciocínio, e programara todo o seu plano de ascensão horizontal tendo por base as noitadas de trabalho árduo no gabinete de Lourenço. Agora, via-se já a ser recambiada num futuro próximo para a sua aldeola materna na Madeira, para trabalhar como caixa no minipreço.
Desgostosa, afastou-se em direcção ao carro, para mais uma tarde a tirar fotocópias e a organizar arquivos no escritório. À sua frente, Bernardo do Valle, o coordenador, conversava com uma figura masculina de fato negro que ela jamais vira. Apenas ouviu o estranho rosnar “Não havia forma de evitar. Fez-se o que tinha que ser feito. Ele sabia demais!”.

Afastou-se, horrorizada. Sentia-se envolvida numa conspiração de mistério e suspense. Sentia-se assustada, esmagada, incendiada, excitada… “Hmm, excitada!...”, pensou. Desencaminhou um colega mais velho para uma escapadinha durante a hora do almoço, decidida a pensar no caso depois.
Só à noite ela jurou a si própria resolver o mistério da morte de Lourenço. Se o coordenador estava envolvido, isso poderia ser uma excelente arma de chantagem!

Que misteriosa conspiração terá determinado o assassinato de Lourenço? Quem é o homem de negro com quem falava Bernardo do Valle? Quantas aventuras, tormentas e bicos aguardam a estagiária Soraya na sua busca pela verdade? Não percam o próximo episódio!

CONTINUA…


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quarta-feira, novembro 03, 2004

 

Campanha de rusticidade forçada

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Neste fim de semana, este Pombo partiu em visita à aldeia dos ancestrais, no Douro, no cumprimento do duro dever de certificar-se que o cabrito assado com arroz de forno e o vinho do Porto da região mantêm os mesmos padrões de qualidade.

A primeira impressão: aproveitaram a minha ausência e transformaram a minha aldeia numa disneylândia da ruralidade!! Vieram de lá os senhores da Europa, a canalha enfiou-lhes cobras de água nos bolsos, cagaram os sapatos de couro italianos nas margens lamacentas do rio Teixeira, surpreenderam casais de calças na mão nos arbustos do Poço do Monteiro, e acharam que faltava ali qualquer coisa.
Vieram de lá os milhões e os senhores do concelho lá trouxeram a aldeia à civilização. As gentes mantêm-se pobres, naturalmente, mas agora poderão arrastar os seus pés encardidos da lavra pelas margens relvadas (sim, com relva mesmo, como nos campos de golfe) do “novo” rio Teixeira, sentar-se nos banquinhos de jardim ou junto às mesas de piquenique, e por lá ficar até altas horas da noite, graças aos novos candeeiros plantados no local. Eis como se transforma uma aldeia de casas de xisto à beira-Douro numa imitação de kolkhoze escandinavo modelo IKEA. A todo o momento esperava ver a minha tia-avó Donzília, envergando o traje regional, ensinando a uma excursão de turistas americanos como os indígenas dali pescavam trutas nas águas do rio (com peixes falsos, de plástico, para assegurar que “no animal has been killed, harmed or otherwise mistreated during the making of this reconstitution”).

Apesar de tudo, aquilo ficou bonito. Talvez seja mesmo de aceitar como preço do progresso…

Mas só a minha tia-avó, com a sabedoria de oitenta e muitos anos, soube expressar o meu estado de alma ao rever a aldeia, quando, ao ver a minha prima com o cabelo tingido de loiro, exclamou amistosamente, mas sem esconder o choque: “Ah, puta russa! Tu não eras assim!”.

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